
"Se eu achar 1 quilo de ouro puro, garanto que compro um carro desses para mim." O então repórter de QUATRO RODAS, Mário Serapicos, ouviu a frase de um garimpeiro que observava o recém-lançado Santana, às margens do rio Madeira, em Rondônia. Em uma viagem de avaliação ao longo de 7000 quilômetros, o modelo CD reunia público por onde passava. Não era para menos. Tratava-se do primeiro modelo de luxo do mais popular fabricante de carros do Brasil, a Volkswagen.Na Alemanha, onde começou a ser comercializado em 1981, ele nunca fez grande sucesso. Pudera, concorria com os irmãos Audi (modelos 80, 100 e 200) que, além da fama de contar com mecânica refinada e tecnologia avançada, ainda tinham um quê de esportividade graças ao título mundial de rali conquistado pela versão Quattro em 1983. Mas por aqui o cenário era diferente. Depois de 25 anos fabricando modelos que faziam jus ao nome de carro do povo, a VW finalmente teria um modelo para concorrer no segmento de luxo, ocupado por Ford Del Rey, Chevrolet Monza, Opala Diplomata e Alfa Romeo.
Para uma empreitada desse porte, a fábrica precisou de sete anos de preparação (de 1977 a 1984) e um investimento, na época, de 50 milhões de dólares. Enquanto o Santana (nome de vento forte do sudoeste da Califórnia) era ainda apenas a sigla BEA 112, um comitê se reunia nas tardes de segunda-feira para discutir o andamento do projeto. Do briefing constavam premissas consideradas essenciais no novo VW. Por exemplo: os bancos e encostos deveriam ser mais confortáveis que os do Passat e ter regulagem leve, sem folgas nem ruídos; o retrovisor interno deveria desacoplar em caso de colisão; as portas, ao serem fechadas, emitiriam som forte e sólido.
Poucos meses antes de iniciada a produção, 600 funcionários de todas as áreas da fábrica foram selecionados e envolvidos no desenvolvimento de novas rotinas e processos. Dentre as novidades, o "jumbo", uma máquina enorme que tinha por função aplicar 100 pontos de solda de uma só vez. Segundo relatos de funcionários da época, a preocupação com qualidade era quase paranóica. Durante a fase de testes, 47 protótipos rodaram 1,75 milhão de quilômetros até o Santana chegar às lojas, em junho de 1984. Eram três versões: CS (Comfort Silver), mais simples, CG (Comfort Golden), intermediária, e CD (Comfort Diamond), top de linha. Na lista de equipamentos disponíveis, dois artigos de luxo na época: ar-condicionado e direção hidráulica. Câmbio automático era privilégio do modelo CD. O motor 1.8 era o maior já feito pela fábrica no Brasil e tinha opção de álcool ou gasolina.
Na linha 1987, o Santana, que já contava com a perua Quantum na família desde 1985, passou por uma leve restilização e suas diferentes versões mudaram de nome e passaram a ser CL, GL e o mais luxuoso, o GLS. Como o belo espécime que aparece nestas páginas. O webdesigner Tiago Telhado, da cidade de Santos (SP), comprou este modelo 1989 no ano passado e é seu segundo dono. O carro faz parte da safra dos modelos 2000, referência ao motor 2 litros, com desempenho nitidamente superior aos 1.8. A versão a álcool tinha 112 cavalos, ante os alegados 99 do motor a gasolina (na época, motores até 100 cavalos pagavam alíquota mais baixa de IPI).
A grande mudança na vida do Santana ocorreu em 1991, quando foi totalmente remodelado. Com linhas inspiradas no Passat alemão, mas desenvolvidas no Brasil, o carro abriu distância sobre seu mais próximo concorrente, o Monza. Tanto que só receberia pequenas modificações em 1996. Mas na essência manteve-se praticamente inalterado até o fim da vida, em maio deste ano. Bem, quase isso. Ao longo do tempo ele foi perdendo elementos do acabamento que um dia o fizeram ser uma referência de conforto no segmento dos nacionais de luxo. E tornou-se apenas uma opção econômica e espaçosa para os motoristas de táxi.
Depois de mais de duas décadas de existência, um final nem tão auspicioso para o carro que inaugurou o uso do ABS nos carros nacionais, que atingiu a respeitável marca de 548494 unidades produzidas e que tem uma crescente comunidade de fãs, como o pessoal do Santana Clube (http://www.santanaclube.com).